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Autismo - a minha

lição de vida

Irene Lopes

Luís Miguel, 16 anos, é um jovem adolescente meigo, inteligente e tímido. Sensível e detentor de uma excepcional capacidade artística para o desenho, foi diagnosticado aos três anos como tendo autismo. Estimulado pelo seu meio envolvente e apoiado incondicionalmente pelo seu núcleo familiar, o percurso deste menino diferente revela-nos o quanto esta doença incurável não pode, nem deve ser considerada como uma sentença.

 

Através do testemunho sincero e aberto da sua mãe, Irene Lopes, que aqui se estreia como autora, o leitor é convidado a acompanhar o percurso de vida do Luís Miguel e da sua família, os seus combates e as suas sucessivas vitórias. Um percurso no qual a dúvida, o medo, a incerteza e a preocupação existem, mas no qual a persistência, a coragem, as alegrias e o amor sobressaem.

 

Mais do que um manual sobre a patologia, Autismo – A minha lição de vida constitui um depoimento informativo e sensibilizador, enriquecido com os contributos na primeira pessoa da família, dos amigos e dos profissionais que já cruzaram o caminho deste menino cuja diferença tem tanto para ensinar. Uma lição de vida, na sua verdadeira acepção.

"Ao escrever este livro passo para o papel a minha experiência de vida enquanto mãe de uma criança diferente. Talvez seja esta uma das formas que encontrei para tentar exorcizar algumas das minhas angústias, aquelas com as quais constantemente me debato, e que certamente continuarei a debater. Quem sabe, com a minha vivência e experiência possa ajudar outros pais, que tal como eu, tiveram a “sorte” de ter um filho diferente?

Quando somos jovens, vivemos povoados de sonhos — legítimos, diga-se. São eles que nos fazem caminhar rumo ao futuro. Temos objectivos, desejos, ambições e, por conseguinte, lutamos por eles.

Entre os meus sonhos, incluía-se o de constituir uma família e ser feliz no seu seio. Assim foi. Encontrei alguém por quem me apaixonei. Os sonhos, esses, continuaram, mas doravante, a dois.

Como tudo tem um princípio, em Outubro de 1990, casámo-nos. Estava, assim, dado o primeiro passo, a primeira parte do sonho concretizada. O meu marido é um homem maravilhoso, bom companheiro, bom pai, e acima de tudo, um amigo dedicado. Na vida que então encetámos a dois, fizemos planos e traçámos caminhos que nos levaram à realização de alguns dos nossos tão almejados desejos. Começámos por aquele que seria, para nós, o mais importante de todos: sermos pais de dois filhos. Planeámos, então, a vinda do nosso primeiro rebento, a nossa primeira filha, a Dora, que nasceu dois anos após o nosso casamento, no dia 3 de Agosto de 1992.

A partir desse dia, a nossa menina era o que de mais precioso tínhamos. Estávamos mais ricos. Tudo fizemos no sentido de lhe proporcionar um ambiente saudável e fazer dela uma criança feliz, amando-a acima de tudo.

Cerca de três anos mais tarde, já sem as fraldas da Dora, chamámos a este mundo o nosso segundo filho, que nasceu em Março de 1995. Demos-lhe o nome de Luís Miguel (Luís como o pai). Era lindo o meu filho; um bebé que mais parecia de cera que de carne e osso, de tão lindo que era!

O Miguel foi crescendo, e aparentemente, o seu desenvol-vimento era perfeitamente normal. No entanto — o coração de mãe bate mais forte —, havia nele alguns sinais que me preocupavam. Um deles remetia para o facto de o tempo passar sem que o Miguel articulasse qualquer palavra inteligível. Aos dois anos, embora não querendo admitir, tinha esta certeza desconfortável de que algo de errado se passava com a saúde do meu filho.

Eu não era propriamente uma leiga em relação à maternidade, já tinha alguma experiência de mãe, e este era o meu segundo filho (a Dora balbuciara muito cedo as suas primeiras palavras). Mas, como a esperança é a última a morrer, e as crianças não são todas iguais, pensei que pudesse existir um atraso na fala. Afinal, todas as crianças são diferentes. Havia, também, outra atenuante, as visitas regulares ao pediatra que o acompanhava desde bebé.

 

Sempre que eu o questionava sobre o assunto, acabava sempre por me responder com uma pergunta:

— Minha senhora, o seu filho ouve?

A minha resposta era sempre igual:

— Senhor doutor, eu acho que sim, pois se reage aos mais diversos sons, tais como, campainhas, buzinas, portas a bater, e até a um pequeno “clique” do vídeo a desligar quando a televisão está a funcionar com o som normal…

E o médico, sempre com a mesma afirmação:

— Então, se o seu filho ouve, ele vai falar.

A consulta e conversa decorrente terminavam sempre assim. Quem era eu, para pôr em dúvida o “diagnóstico” de um especialista da área?!

O Miguel era uma criança de físico robusto, mas com frequentes otites e amigdalites. Quando digo frequentes, refiro-me a episódios com regularidade mensal. Dada esta frequência e as decorrentes tomas constantes de antibiótico que me preocupavam, resolvemos levá-lo a um médico da especialidade, um otorrinolaringologista.

Chegado o dia, lá fomos à consulta, eu, o meu marido e o Miguel. Após o nosso relato e a exposição das nossas preocupações, o médico, que nos tinha escutado atentamente e se tinha apercebido da dificuldade de o Miguel se deixar observar, sugeriu que o deixássemos circular pelo gabinete livremente, sem chamá-lo à atenção. Certamente, percebia que o comportamento do meu filho era diferente. No final da consulta, propôs-nos efectuar-se uma bateria de exames no Hospital de Coimbra, ao que ficámos de imediato receptivos. A nossa ansiedade por um diagnóstico correcto era grande, e no dia e à hora marcada, lá estávamos nós. Começaram, então, os primeiros exames, a nível auditivo, que iriam auxiliar no diagnóstico da sua patologia.

Foram várias as viagens feitas a Coimbra, até que fossem realizados todos os exames possíveis na altura. Passados alguns meses, retornámos à consulta de otorrinolaringologia, desta vez, para conhecermos o resultado dos exames. O médico informou-nos que tendo em conta o que lhe havia sido dado a observar nos exames realizados, se tratava apenas de uma pequena lesão no ouvido esquerdo devida às frequentes otites sofridas até então. Mas, na sua opinião, tal lesão não seria razão suficiente para que a mensagem não chegasse ao cérebro do Miguel e o impedisse de ouvir e falar correctamente. Assim, o seu diagnóstico, ainda que precoce e sem confirmação, mas que nos caía como uma bomba, remetia para o autismo. Autismo?! Que monstro de doença seria esta que atingira o meu filho? O nome não me era estranho, no entanto, nada sabia acerca desta patologia. Afinal, em que consistia? Quais eram os sintomas? Que tipo de tratamento se poderia fazer? Teria cura? Tantas questões que nos assolavam de repente e às quais não tínhamos resposta. E nas nossas mentes e nos nossos corações martelava a eterna pergunta do porquê. Porquê a nós?! Hoje, conscientemente, pergunto, e porque não a nós?

A partir dessa altura começou a história de um menino diferente, muito especial, e simultaneamente, igual a tantos outros! No decorrer destes anos, passámos por situações inimagináveis, umas boas e outras más. Ao longo das próximas páginas, tentarei descrever mais pormenorizadamente a minha “odisseia” de mãe, de encarregada de educação e de ser humano."

 

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