Para alguns, o sucesso está intimamente ligado ao conceito de best-seller, encarado como o objectivo último de qualquer autor. Esta relação tem na base a ideia de que o sucesso e o valor são interdependentes. Por outras palavras, quanto maior o sucesso de uma obra, maior o génio do seu autor. Contudo, esta associação, característica dos séculos posteriores ao surgimento da prensa de Gutenberg, começa a ser posta em causa a partir do século XIX, surgindo uma corrente totalmente oposta que defende a contradição entre o sucesso e o valor. Apesar do debate, o termo best-seller, utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1889 e difundido no resto do mundo sobretudo após a Primeira Guerra Mundial, enraíza-se num mundo editorial industrializado, em que o sucesso também é definido pelo número de vendas.

 

Ultrapassando a discussão em torno do valor, que pode ser entendido como incerto, aleatório e discutível, todos parecem concordar com a dimensão quase enigmática do sucesso, que se situa, nas palavras do bibliófilo e escritor francês Frédéric Rouvillois (2011), “no cruzamento da técnica e da magia, do milagre e da indústria pesada”.

 

Apesar de o sucesso na publicação ter a ver com o conceito de best-seller, não será redutor associá-lo apenas à quantidade da tiragem e ao número efectivo de vendas ocorridas? Qual a relação entre a venda e a leitura?

 

A questão da venda subjacente ao termo best-seller (“aquele que vende mais”) não será antes uma questão ligada ao sector editorial cujo negócio último é o da venda de exemplares de uma obra?

 

Qual será, então, para o autor, o significado real de sucesso?

 

Muitos dirão que existem tantos sucessos quanto autores. De facto, as motivações para a publicação poderão ser inúmeras e dependentes, certamente, dos objectivos pessoais e profissionais dos autores. Enquanto para alguns autores a publicação constitui a confirmação da sua veia literária e o reconhecimento do seu talento, para outros, o facto de serem publicados equivale a uma oportunidade de revelarem algo ao grande público, de partilharem com os demais. Ambas as motivações remetem para duas vertentes distintas da publicação:

 

A publicação como um fim. A publicação constitui o objectivo último do autor que vê no acto de ser publicado uma recompensa em si, que poderá, ou não, vir a obter outros frutos. Estes últimos são entendidos como secundários, uma vez que a meta foi atingida. O sucesso é então definido pela publicação que reconhece aquela pessoa como autora. A validação por parte do sector editorial tradicional confere-lhe um estatuto: o de autor. A importância deste aval provém do lugar singular ocupado pelo livro na nossa sociedade, formato que ainda no século XIX, como indica Donald Sassoon (2006), era o único bem cultural (para além dos jornais) que podíamos trazer para casa ou consumir sem outra competência para além da leitura. Os tempos mudaram, é certo, mas continuamos, em parte, a aprender, a imaginar, a transmitir, a sonhar, a revelar(-nos) através deste meio.

 

A publicação como um meio. A publicação é encarada como um veículo para atingir determinados fins. Estes últimos dependem única e exclusivamente do autor que utiliza a publicação como um meio de divulgação da sua arte, da sua reflexão ou da sua imaginação. Aqui a publicação extravasa o sinónimo de reconhecimento conferido pela indústria editorial (como um fim), remetendo para uma forma de emitir, comunicar, divulgar, propagar e partilhar conteúdos que poderá ou não passar pela edição e pela impressão. Mais do que o estatuto, o formato livro confere um papel social ao autor que passa pela sua mensagem (literária ou não). Neste quadro, o autor publica para alcançar objectivos específicos que, por seu lado, remetem para um leque variado de motivações. A diversidade de géneros literários, já comuns no século XX, testemunha a quantidade de formas de expressão escrita que encontram um público. Os diferentes tipos de romance, a ficção científica, a biografia, os livros de história, os livros de divulgação científica, os livros infantis, os livros técnicos, os livros de receitas, os livros de viagens, os livros de fotografia, a banda desenhada, os diários, as correspondências, os livros ilustrados, os livros de desenvolvimento pessoal, entre muitos outros, demonstram a multiplicidade de conteúdos que através da publicação encontram um público específico, os seus leitores. Seja com vista a viver dos seus escritos e vender um número máximo de exemplares para assegurar futuras publicações, seja com o objectivo de manter viva a memória, seja para partilhar uma história ou uma mensagem, a publicação constitui um meio único de comunicação.

 

O sucesso na publicação situa-se, portanto, na intersecção entre a acção e o que dela advém, entre o objectivo e o resultado. A noção de sucesso do autor (variável e diversa) é primordial por essa razão, pois da sua identificação, e consequente delineação de metas, o autor pode seleccionar o(s) canal(ais) que mais se adequa(m) às suas motivações.

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