Escrita biográfica

 

As obras biográficas representam hoje em dia um género literário dominante. Se consultarmos os catálogos dos editores ou percorrermos as estantes das livrarias, apercebemo-nos que este tipo de escrita mais intima (biografias, autobiografias, livros de memórias, testemunhos, diários, fotobiografias, livros de viagem, etc.) tem vindo a assumir um lugar de destaque. Independentemente das autobiografias literárias produzidas por escritores aclamados, vemos crescer o surgimento de (auto)biografias de personalidades mediaticamente conhecidas que partilham com o público a sua infância, assim como os acontecimentos marcantes das suas carreiras. A edição livre e independente tem impulsionado também os anónimos a realizarem os seus próprios projectos editoriais, sendo hoje possível partilhar os seus escritos biográficos fora da indústria livreira.

Para além da sua importância crescente, a escrita biográfica tem “contaminado” cada vez mais os outros géneros literários. Frequentemente avalia-se um romance, por exemplo, à luz da sua relação com a vida do autor, como se a ficção adquirisse maior interesse se encarada como uma autobiografia disfarçada, garante aparente de um crédito de verdade, ou seja, de valor.

 

Mas, o que é que motiva alguém a escrever a(s) história(s) da sua vida?

 

São muitas as razões para a passagem ao acto: exercício de análise, desejo de partilha, necessidade de justificação, vontade de ressuscitar momentos do passado, etc. Tudo se resume ou está intimamente ligado aos destinatários da obra, ou seja para quem estamos a escrever. Encarada numa lógica de testemunho, a escrita biográfica dirige-se a um público, conhecido ou anónimo. Numa perspectiva contemplativa na qual a escrita assume uma função de espelho, a narrativa deixa de se destinar a um público exterior, aproximando-se de uma escrita mais introspectiva (revisitar o passado) ou até terapêutica (libertar-se do passado).

Uma coisa é certa, escrever sobre si mesmo constitui um desafio e tanto, mas a recompensa vale bem a pena, não só em termos do resultado final, mas também porque remete para um processo enriquecedor em que vestimos a pele de historiadores e arqueólogos das nossas próprias existências. A escrita biográfica tem poder porque nos transforma, ajudando-nos a tomarmos consciência do quanto somos autores das nossas vidas.

 

Por onde começar? Que caminho trilhar? Como e em que moldes produzir este tipo de narrativa?

 

No nosso dia-a-dia, na Monóculo, ajudamos as pessoas a escreverem sobre as suas vidas. Ao longo de mais de cinco anos ajudámos a realizar dezenas de obras (auto)biográficas. Apercebemo-nos que a síndroma da página branca não é ficção e que tal se prende, vezes sem conta, ao desconhecimento das regras basilares deste género literário. Ora, a nossa missão consiste precisamente em trazer essa luz, esse conhecimento e competência aos que desejam embarcar na viagem única mas transmissível que é a escrita biográfica. Fazemo-lo através do acompanhamento personalizado de cada um, mas também pela via de oficinas de escrita e encontros em todos os cantos do país. Os motes para uma escrita biográfica, iniciados há poucos dias em Lisboa, com uma periodicidade mensal são um exemplo disso. Neles, exploramos e pomos em prática estratégias e técnicas que permitem adquirir saber e saber-fazer, tomar maior consciência sobre o acto da escrita e o que ela nos traz, de forma despretensiosa e sobretudo divertida, ultrapassando receios e medos que não são mais do que construções mentais sobre este acto que é escrever sobre nós próprios.

 

Artigo publicado na revista Mil Pétalas Magazine: https://issuu.com/milpetalas.magazine/docs/mil_petalas_mag_06_final/1

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