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O escritor norte-americano Paul Auster iniciou-se nas lides da escrita através da Poesia, mas foi no Romance que se deu a conhecer, sendo considerado o autor do acaso e da errância. Seguem alguns dos segredos que partilhou com o jornalista Michael Wood, para The Paris Review há já mais de 10 anos.

 

 

 

 

TPR: Quais são as suas estratégias de escrita?

P.A.: Quando escrevo sigo uma trajectória. Cada texto começa na primeira frase e acaba na última. Trabalho por sequências, parágrafo a parágrafo. A meu ver, o parágrafo constitui a unidade do romance, tal como representa o verso na poesia. Trabalho no mesmo parágrafo até sentir-me razoavelmente satisfeito com o resultado. Reescrevo-o até obter forma exacta, o equilíbrio exacto, a musicalidade exacta. É preciso que o texto pareça fluido, “não escrito”. Um parágrafo tanto pode demorar uma hora como três dias. Tenho frequentemente a primeira e a última frase da minha narrativa na cabeça, mas as coisas podem mudar à medida que avanço. Nenhum dos meus livros acabou como tinha inicialmente imaginado. Há personagens e situações que desaparecem, outras que surgem. Descobrimos o nosso livro enquanto o escrevemos, é uma aventura. Não seria muito interessante se tudo fosse completamente planeado.

 

TPR: Será que é preciso ser um grande leitor para escrever?

P.A.: Para mim, um autor teve necessariamente de ser um leitor voraz na sua adolescência. Um verdadeiro leitor compreende que os livros contêm um mundo, e que esse é mais rico do que qualquer outro. É esta alegria de viver dentro dos livros que transforma jovens em escritores. Ainda não vivemos o suficiente para ter escrito muita coisa, mas chega uma altura em que percebemos que somos feitos para isso. E cada escritor precisa de um leitor de confiança. Alguém que deseje que o seu livro seja o melhor possível e que seja honesto consigo. Este leitor não mente, não o felicita quando não presta.

 

TPR: Qual é a sua visão do romance?

P.A.: Escrever um romance é para mim um acto de fé. É preciso apresentar as coisas tal como elas são e não como elas deveriam ser. Os romances são ficções e contam-nos mentiras, mesmo se, através deles, o romancista tenta dizer a verdade sobre o mundo. O trabalho da imaginação confere uma liberdade impossível na não-ficção. Mas esta liberdade pode ser assustadora. O que acontecerá de seguida? Como posso saber se a próxima frase não será um muro?

 

TPR: Qual é o principal defeito dos jovens escritores?

P.A.: O egoísmo, a incapacidade de se projectarem nos outros. É primordial ter os olhos abertos ao mundo em vez de olharmos para o nosso próprio umbigo. Os escritores devem estar atentos a tudo o que se passa à sua volta.

 

 

Fonte: The Paris Review – http://www.theparisreview.org/interviews/121/the-art-of-fiction-no-178-paul-auster

 

Créditos da imagem: Quadro “Paul Auster on La Stampa/watercolor on shoellershammers”   Paolo Galetto – http://paologaletto.blogspot.pt/

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