Monóculo - escreva, faça e publique o seu próprio livro
Projectos editoriais à medida

Escrito na Cal é o seu livro de estreia. Quer partilhar com os leitores como lhe surgiu a ideia de publicar a sua própria obra?

 

Habitualmente, de há muito, escrevo com regularidade. Durante algum tempo mantive uma coluna no jornal “Brados do Alentejo” semanário estremocense. As crónicas tinham por título “Crónicas de Aquém-Tejo” e tinham um pendor de narração de acontecimentos históricos havidos na história de Estremoz dos primórdios aos nossos dias. Foi uma ideia de despertar, sobretudo os mais novos, para a imensidão e riqueza histórica desta urbe. Mais recentemente mantive dois blogues com grande actualidade e heterogeneidade de temas, hoje menos, deste crescendo e doutros escritos nasceu a ideia de publicar um livro.

 

Porque é que o José Movilha optou por esta alternativa de partilhar o seu romance recorrendo à edição de autor?

 

Confesso que recebi algumas ofertas de intermediação para apresentar o livro a editoras. Chegou mesmo a existir a intenção de enviar o manuscrito para alguns dos concursos literários anuais que se realizam entre nós. No entanto, tomou corpo a ideia da edição de autor como projecto mais viável no imediato. O aparecimento da Monóculo foi decisivo para dar corpo e realidade a esta grande partilha com os leitores.

 

Grande parte da narrativa deste seu romance de estreia, situa-se na sua cidade natal, Estremoz, retratando a relação entre o campesinato e o latifundiário, em particular, em meados da década de 30 do século passado. Como surgiu a ideia de explorar este período, este tema e contexto?

 

Poderia ter escrito sobre outras realidades, desenvolvido outros temas, as fronteiras da criação literária não têm limites: como o provou, por exemplo, tão bem Júlio Verne que sem sair da sua Nantes natal nos deu páginas imemoriais das vivências do mundo. No entanto, dado o momento que atravessamos, esta conturbada e vincada crise social do século XXI, quis ter como base o período conturbado das primeiras décadas do século XX. Homenagear a minha terra natal Estremoz dando-lhe o berço da narrativa, dar a conhecer as vicissitudes que o operariado e o campesinato passaram sobretudo nos anos 30. Fazer dessa evocação uma mensagem de união e esperança às gentes que hoje sofrem de alguma maneira.

 

O José tem por hábito dizer, à semelhança de Emerson, que “É o bom leitor que faz o bom livro”. Quais foram as suas maiores influências?

 

Um “devorador de livros”, no bom sentido da extensão da palavra, recebe sempre muitas influências no decorrer de anos de leituras. São “sinapses” culturais que vão ocorrendo enquanto escrita e que até deambulam no tertuliar quotidiano. Quando falo nesta apelativa citação de Emerson, quero dizer que um livro é tanto mais “bom livro” quando interpretado na plenitude da mensagem do escritor, isto acontece quanto o leitor está preparado culturalmente para o prazer das pequenas subtilezas metafóricas e suas descodificações.

 

Apesar de grande parte da narrativa se situar temporalmente na década de 30 do século XX, aquando da Guerra Civil em Espanha e antes da Segunda Guerra Mundial, o autor faz incursões temporais ao passado, em particular, ao contexto específico da Implantação da República, mas também remete para o presente. O leitor assiste mais do que uma vez a um cruzar de gerações, no qual os mais velhos trazem algo aos mais novos, mas onde o contrário também se verifica…

 

Sim, o livro deambula em muitas datas marcantes e acontecidas no ante e pós República. Não esquecendo, antes disso, a auréola miguelista que ficou como latência do absolutismo e deu de arauto a uma classe de latifúndio que se converteu no apanágio do chamado Estado Novo. Fala do terrível flagelo da Pneumónica e da Primeira Guerra Mundial; torna estes períodos antecâmaras dos grandes males cerceadores que haviam de vir nos anos 30 em que a terrível Guerra Civil de Espanha, após a derrota da 2ª República, também foi contágio de inspiração ultramontana no nosso país. Na luta democrática que nesse tempo envolveu gerações, em que os ensinamentos dos mais velhos são acolhidos pelos mais novos, estes renovam-lhes a esperança de prosseguir, numa dádiva pelas lutas dos direitos essenciais.

 

Em Escrito na Cal, o leitor encontra inúmeras referências a factos verídicos e personalidades que realmente existiram…

 

Sim, Escrito na Cal tem um rigor muito íntegro dos factos históricos e dos acontecimentos, é uma maneira de escrever que me é muito cara e que cultivo para um benefício sólido e cultural dos leitores. Todas aquelas personagens existiram na época, umas numa vivência de um quotidiano mais próximo e referenciado, outras caracterizam as mentalidades existentes na época e as suas prepotências retrógradas e destituídas de humanidade.

 

O narrador evidencia ao longo das 274 páginas o poder da palavra. O que significa para si a palavra?

 

A palavra é aquilo que se transmuta página a página. O cadinho que se vai fundido para a Obra final. A Fénix renascida a cada vigília do construir e a cada guardar da centelha que vive no coração do escritor. Desta clausura de muitos dias vive uma luz latente que é ofertada ao leitor. Ele é a razão de existirem livros e a força da palavra.

 

Que sugestão pode dar a outros que, como o José, desejam lançar-se na escrita?

 

Em determinada parte do meu livro uma das personagens diz à outra o que pensa serem os ingredientes para ser escritor. Compara-o à feitura de um pão e às suas fases de aprimoramento e realização. Direi que há mais alguma coisa, algum mistério escondido que enquanto escrita, nos passa para o outro lado do espelho. Mas, a minha sugestão é que devemos porfiar, trabalhar e escrever com regularidade, ler, ler muito e sobretudo escrever com paixão e com aquilo que nos vai na alma.

 

Tem outros projectos editoriais no prelo que possa partilhar connosco?

 

Esta caminhada vai-se fazendo entre sonhos, vigílias e o adorno da palavra que está já plantada. E mal acaba a dádiva do que é dado ser livro logo se espraia o pensamento em conceber de novo. Nenhum escritor pode fugir a este “láudano” bom que são os ares do prelo. Seguramente penso dar-vos de novo a força da palavra a ler.

 

Escrito na Cal

José A. Movilha

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