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Projectos editoriais à medida

Folhas em Branco é o seu livro de estreia. Quer partilhar com os leitores como lhe surgiu a ideia de publicar a sua própria obra?

 

Não terá sido tanto a ideia de publicar, antes a necessidade de tornar palpável um conjunto de textos que se arriscavam a ficar para sempre na gaveta e a permanecer como o resultado de, digamos, um hobby ou uma diletância inconsequente. A publicação serve para dizer a mim próprio que não, que não é totalmente inconsequente, que existe um resultado para isto tudo. E de certa forma um compromisso, também. Serve para me responsabilizar, serve para continuar.

 

Porque é que o Filipe Raveira optou por esta alternativa de partilhar a sua poesia recorrendo à edição de autor?

 

Em determinada altura enviei o manuscrito para algumas editoras, mas não tive respostas favoráveis (ou não tive resposta nenhuma). Depois acabei por achar que a edição de autor ainda era a que mais convinha ao tal propósito de simplesmente materializar estes textos em livro, sem ter que os submeter à crítica ou à avaliação das editoras. Há uns anos li uma entrevista de um pedagogo que dizia que o pior inimigo da criatividade é a avaliação e isso ficou-me na cabeça. Eu apenas pretendo publicar aquilo que de momento acho que tem valor literário; não ando à procura que me digam se é bom ou mau. A minha própria censura já me dá trabalho que chegue.

 

A infância está presente em diferentes poemas, o antes e o depois (presente) também. Poderemos depreender uma certa melancolia, ver até nostalgia, em relação a um passado ou ao ser criança?

 

Acho que sim. Não que sinta propriamente saudades, ou melhor, desejo de voltar lá ou de reviver tudo. É mais uma espécie de exercício à volta de coisas que foram sentidas ou desejadas nessa altura e cuja impressão permaneceu. Ou coisas imaginadas. É como se dissesse à criança que fui 'olha, estás a ver, eu lembro-me do que pensavas, não há problema' ou 'afinal não estás sozinho'...

 

Ao longo de mais de 60 páginas, o poeta partilha com o leitor um universo que pressupomos lhe ser próprio. Porque é que escolheu um título, à partida, tão vago como Folhas em branco? Será que, como um pintor perante a sua tela branca, o poeta navega desenhando palavras por entre folhas em branco? Assim sendo qual o significado deste desenho?

 

Havia um texto com esse título que acabou por ficar para trás. O texto, não o título. O título sempre andou comigo e desde há muito que sabia que se publicasse algo havia de ser chamado assim. A razão? Talvez tenha a ver com uma ideia de sobriedade ou simplicidade de estilo que acho que de alguma forma procurava – e procuro. No texto em questão havia mais uma ideia de despojamento, de humildade extrema. Algo como 'olha, não é nada de especial, são quase folhas em branco, mas estão aqui – existem e hão-de valer alguma coisa'.

 

Ao ler os poemas que partilha em Folhas em branco, o leitor tem uma sensação de viajar com o autor no seio de ciclos. Poder-se-á extrapolar esta ideia quase catártica de fecho de ciclos?

 

É uma interpretação possível.

 

O poeta é necessariamente um ser solitário?

 

Acho que não. Acho que isso é um estereótipo. A não ser que se esteja a falar de um determinado tipo muito bem definido de poeta. Quer dizer, eu nem sei muito bem o que é um poeta. Sei que existe um estereótipo de poeta e que geralmente o ser solitário encaixa quase sempre nesse estereótipo. Eventualmente uma pessoa pode achar que a qualidade literária tem muito a ver com trabalho, introspecção, muito tempo passado nisso e que necessariamente não se está com os outros durante esse tempo. Mas a isso eu não chamaria solidão, chamar-lhe-ia eventualmente dedicação, falta de tempo...

Agora, penso que uma pessoa se pode referir à introspecção como uma forma de solidão, sem dúvida; ou à percepção da poesia ou da própria vida em si. Posso especular: se calhar, todos os momentos em que dou por mim sozinho e em que me ocorre uma ideia com uma determinada forma ou estética ou cadência - isso pode ser poesia? Porque não? Existem sempre momentos íntimos, não-partilháveis; às vezes surge uma ideia desses momentos, às vezes registamos essa ideia. Outras vezes, a ideia surge-nos da interacção com o Outro, materializa-se por causa da relação.

Registar é que consome tempo, é que obriga a um afastamento. Mas não lhe chamaria solidão. Eu, pela parte que me toca, gostaria de fazer poesia e não ser solitário. E ter um método automático de registar tudo o que se pensa quando necessário - isso também dava muito jeito.

 

Tem outros projectos editoriais no prelo que possa partilhar connosco?

 

Ainda não. Prefiro pensar que este é o único. Gostava que não fosse, é certo, mas prefiro não pensar em publicar mais nada, sob pena de perder espontaneidade. Além do mais não tenho escrito muito. É a tal avaliação, neste caso a minha, que mata a coisa à nascença. A coisa é a criatividade. Não posso estar a escrever e a pensar que é para ser publicado; as coisas acabam sempre por não me soar tão genuínas. Têm que sair sem perspectiva ou projecto ou objectivo; têm que sair como se não fossem a lado nenhum (e a maior parte não vai). E depois têm que amadurecer. E depois algumas ficam naturalmente para trás. É assim que funciona. O que é bom sobrevive. Vamos ver.

 

 

 

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