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Projectos editoriais à medida

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Minas dos Carris – Histórias mineiras na Serra do Gerês  é o seu livro de estreia. Quer partilhar com os leitores como lhe surgiu a ideia de publicar a sua própria obra?

 

A ideia surge porque rapidamente constatei que o seria impossível de fazer de outra forma. A ideia que tenho é que as grandes editoras estão como que auto-blindadas aos autores desconhecidos e sendo um meio no qual não me sentia muito confortável (e com uma certa urgência em publicar um trabalho de vários anos que já não merecia estar guardado por muito mais tempo), decidi assim avançar para a publicação.

 

Porque é que o Rui Barbosa optou por esta alternativa, a de partilhar o seu livro recorrendo à edição independente?

 

A resposta vem em parte em continuação da resposta anterior. Por outro lado, a edição independente livra-nos de uma possível amarra que nos pode condicionar quando o apoio surge por parte de entidades que «investem» na publicação da obra.

 

Este livro é o resultado de uma investigação que levou a cabo durante sete anos. Tal revela, desde já, paixão pelo local e pelo tema. De onde lhe vem toda esta paixão e dedicação às Minas dos Carris?

 

A primeira vez que visitei aquele local foi para mim uma verdadeira aventura em todos os sentidos, tanto no aspecto físico como pessoal. Se a caminhada pela montanha em si foi algo de muito duro (e ainda continua a ser), a experiência pessoal foi avassaladora! No tempo em que lá estive nesse dia, absorvi toda a informação que me era possível e tudo me fascinou. Se por um lado jurei que nunca mais lá voltava devido à dureza da caminhada, por outro acabaria por surgir uma paixão e uma necessidade imensa de saber sobre aquele local, conhecer a sua história.

 

Qual é o seu principal objectivo ao publicar esta obra?

 

Acima de tudo corrigir uma injustiça daquelas nas quais Portugal é pródigo. Somos um país riquíssimo em História e património, mas temos a incompreensível tendência de esquecer partes importantes dessa História e desse património; principalmente aquelas partes que estão num Portugal esquecido. Com isso, vamos perdendo testemunhos importante para ajudar a formar o eterno puzzle que é Portugal.

A História do volfrâmio e dos anos que foram ricos em prospecção deste minério não se limitam às minas mais conhecidas. Existiram complexos mineiros mais pequenos que tiveram um papel importante nas dinâmicas territoriais em muitas zonas de Portugal, como foi o caso das Minas dos Carris na Serra do Gerês.

Sendo também um local de visita quase obrigatória para os montanhistas do Gerês profundo, a história das Minas dos Carris merecia ser colocada em papel e assim corrigir a tal injustiça.

 

Ao longo dos anos foi adquirindo um vasto espólio iconográfico, assim como um repositório único de testemunhos que nos contam a(s) história(s) de um local perdido, como costuma lembrar, na Serra do Gerês. Trata-se de um legado que sem o livro se perderia para todo o sempre?

 

Em vários aspectos acho que sim! Se o espólio existente no arquivo do Instituto Geológico e Mineiro ou mesmo no Ministério da Economia está «devidamente conservado», o resto já não se pode dizer da memória fotográfica e acima de tudo da memória dos homens que se vai perdendo com o passar dos anos. Neste livro, existem relatos que de outra forma seriam perdidos e fotografias que ficariam no domínio familiar sem nunca «ver a luz do dia». O livro é importantíssimo neste aspecto.

 

No prefácio ao seu livro, o Professor José Manuel Lopes Cordeiro indica que o Rui Barbosa consegue nesta obra “dissipar consideravelmente o enigma que as Minas dos Carris encerram”. De que enigma se trata?

 

É curioso que Professor José Manuel Lopes Cordeiro diga “dissipar consideravelmente” e eu concordo em absoluto com ele. O livro tenta levantar o véu da História das Minas dos Carris e em si não tenta ser o fim dessa História, pios eu acho que haverá sempre algo mais a contar e a registar.

O ‘enigma’ é a própria história do complexo mineiro… Como surgiu, como se formou e desenvolveu, quais as suas fases, como desapareceu e o que representa nos nossos dias.

De qualquer das maneiras, espero que esse enigma continue por lá e na imaginação de quem visita o local.

 

Ao longo de 280 páginas, o leitor acompanha a evolução das Minas dos Carris. Década após década, desde a sua criação nos anos 40, o leitor caminha consigo pelos caminhos das memórias de outros tempos, chegando aos dias de hoje. Existirá algum futuro para as Minas dos Carris que extravase o folhear desta obra?

 

Eu gostava de houvesse. Gostava que houvesse uma intenção de se perpetuar a memória daquele lugar e dos que lá trabalharam e perderam a vida. As minas foram um pólo importante para as gentes serranas do Gerês e é um património que deveria ser conservado servindo de base para uma formação ambiental de todos os que visitam o Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Não digo que as minas em si deveriam ser transformadas nesse pólo, mas seria interessante se criar um museu mineiro com esses objectivos.

 

Que sugestão pode dar a outros que, como o Rui, desejam lançar-se na escrita?

 

Que tenham cuidado pois é um bichinho que entra dentro de nós e do qual é difícil nos livrarmos. A escrita torna-se algo de apaixonante e é o nosso legado pessoal para as gerações futuras, sejamos escritores conceituados ou desconhecidos.

 

A realização deste livro teve associada uma campanha de crowdfunding, sendo o Rui Barbosa um dos primeiros autores portugueses a recorrer a este tipo de iniciativa. Na sua opinião, esta será uma verdadeira alternativa para a concretização de projectos editoriais numa lógica de edição independente?

 

Sem dúvida que sim. Diria até que o crowdfunding é um excelente complemento à edição independente e ajuda-nos a estreitar a relação com o nosso trabalho, ao mesmo tempo permitindo que outras pessoas se tornem parte dele. Sem o crowdfunding este projecto não seria possível e isso, por si só, demonstra a sua importância.

 

Tem outros projectos editoriais no prelo que possa partilhar connosco?

 

2014 poderá ver surgir um novo trabalho relacionado com a Serra do Gerês. O nosso parque nacional é um manancial de experiências e descobertas que merecem ser partilhadas, e de património a registar. Esta será a linha geral do próximo trabalho já em fase de projecto.

Uma outra ideia está nos antípodas destes trabalhos anteriores e talvez veja uma incursão no mundo poético com o projecto ‘Sombras na Noite’ que resulta das muitas horas de vivência pessoal na montanha. A ideia, que não é certamente inovadora, é a de juntar a poesia à fotografia. A ver vamos o que o futuro nos trás!!!

 

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