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Projectos editoriais à medida

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Ousar ser feliz: Dá trabalho mas compensa!  é o seu livro de estreia. Quer partilhar com os leitores como lhe surgiu a ideia de publicar a sua própria obra?

 

Algumas pessoas começaram a contactar o semanário Mundo Positivo para pedirem números anteriores com o objetivo de colecionarem os meus textos. Foi então que comecei a pensar que se fizesse uma compilação de textos e os apresentasse em formato de livro eu ia estar, de certa maneira, a ir ao encontro da vontade dos leitores, conseguindo, desta forma, chegar até um público mais vasto. Outra questão que me ajudou muito a investir nesta ideia foi o facto de ter ilustrações personalizadas para cada texto, o que não acontece no Mundo Positivo. Os sonhos foram surgindo aos poucos e à medida que ia falando com algumas pessoas sobre estas ideias, fui tendo um feedback muito positivo. Quis dar então voz à minha intuição e avancei com o projeto.

 

Porque é que a Rossana optou por esta alternativa, a de partilhar o seu livro recorrendo à edição independente?

 

Tentei contactar editoras para publicarem o meu livro, mas senti um certo receio em apostarem num autor desconhecido. Adiam as respostas e o projeto vai ficando parado. Perante esta situação de pouca abertura, pensei então que este livro poderia manter a mesma linha de ação do semanário Mundo Positivo, isto é, ser fruto de um investimento pessoal, tendo assim de assumir em primeira pessoa um papel muito mais ativo em todo o processo de realização do livro — o que acabou por ser muito mais divertido e gratificante do que simplesmente entregar a obra a uma editora. Quando acreditamos numa ideia e sentimos recetividade por parte dos que nos rodeiam, tudo é mais simples e rapidamente essas ideias ganham forma. Foi o que aconteceu com este livro. Em vez de ficar desiludida por não ter tido a resposta esperada por parte das editoras do nosso mercado, fiquei excitada com a ideia de poder concretizar este sonho por mim.

 

A Rossana indica, no seu prefácio, que este seu livro de estreia resultou do desafio de escrever semanalmente para o semanário Mundo Positivo. É um desafio escrever sobre a felicidade?

 

É um desafio escrever sobre o que quer que seja. Ter um compromisso, neste caso semanal, com os leitores é um desafio, na medida em que a escrita é também um processo criativo e quando se encontra sujeito a expectativas ou obrigações pode causar algum stress, embora seja também essa pressão que nos estimula. Escrever sobre a felicidade pode ser um desafio ainda maior porque nos tempos que correm, há muita gente que simplesmente olha para este tema como uma utopia. Por outro lado, também há já muita coisa escrita sobre a felicidade, mas a meu ver de forma superficial, pouco fundamentada, em que tudo parece simples e fácil. Há inúmeros autores que vendem milhares de livros mas cujos textos são de certa maneira “perigosos” pelo facilitismo com que apresentam as questões. E muita gente acredita cegamente no que lhe é dito, por falta de espírito crítico e na sequência de uma sede imensa de viver uma vida melhor.  Escrever para um grande público, apresentando ideias e argumentando-as de maneira mais elaborada, mas ao mesmo tempo de forma simples, é um grande desafio. Não se trata de acreditar ou não no que escrevo, trata-se de pensar se o que escrevo faz sentido para a vida daquele leitor. Não apresento verdades absolutas, mas apenas ideias cujo objetivo é estimularem o leitor a pensar e a sentir o que é que ele quer e precisa para a sua vida, embora haja alguns pontos comuns a todos nós enquanto seres humanos.

 

Ao longo de mais de 100 páginas, a Rossana partilha com leitor dicas e exercícios que podemos pôr em prática para sermos mais felizes, nas suas palavras, para uma vida mais plena. O que entende por vida mais plena?

 

A “vida plena” é uma expressão utilizada pelo psicólogo humanista Carl Rogers para indicar uma vida coerente consigo próprio, ou seja, uma vida que respeite os princípios da liberdade, da autonomia, da autoconsciência e da responsabilidade de escolher para si o que cada um de nós considera ser uma vida de qualidade. É ter o discernimento de aceitar o que quer, de lutar pelo que deseja e de recusar o que não lhe convém. Viver o presente, sem nostalgias do passado ou ansiedades relativamente ao futuro, ser aberto a experimentar coisas novas, pois só através da experiência podemos decidir o que agarrar e/ou o que descartar. No fundo, é assumir o processo natural de maturação e de crescimento da pessoa, que é um processo constante, tendo sempre presente a liberdade de escolha. Ser autónomo e responsável pelas próprias opções de vida, ou como eu também digo no livro, ser autor da própria história.

 

Porquê “ousar” ser feliz? A ousadia está de mãos dadas com a coragem?

 

Absolutamente! A coragem é a capacidade de agirmos apesar dos nossos medos. Ser feliz passa por reconhecermos os nossos medos (e já isso é bastante difícil, pois passa por um processo de autoconsciência que muitos de nós nem isso quer fazer); passa depois por  conseguirmos enfrentar esses medos, pormo-nos à prova, experimentarmos novos caminhos, novas formas de estar e de lidar com os outros. E isto tudo é extremamente difícil, é preciso mesmo ter a ousadia para sentirmos as nossas necessidades, afirmarmo-las e lutarmos por elas.

 

Nas 50 dicas apresentadas, a Rossana reforça a ideia de que a felicidade não é um fim, um objectivo em si mesmo, mas uma forma de estar. Quer explicar-nos o que isso quer dizer?

 

Ser feliz é viver de forma coerente com o nosso ser mais profundo, não com aquele que fomos construindo ao longo do tempo na sequência da nossa educação, cultura, etc., mas sim com aquilo que verdadeiramente sentimos, na plena liberdade e autonomia do nosso ser. É sermos aquilo que sentimos, aquilo que pensamos, aquilo que desejamos e fazemos, diariamente, de forma coerente com os nossos valores intrínsecos, não com aqueles que nos foram impostos. A felicidade é uma utopia se pensarmos que quando acabarmos o curso e arranjarmos trabalho e comprarmos um carro e uma casa e encontrarmos marido/mulher e tivermos filhos seremos felizes… assim nunca estaremos satisfeitos! É fundamental termos objetivos na vida, mas quando estabelecemos um objetivo, todo o caminho que percorremos para o atingirmos deve ser tão ou mais satisfatório do ponto de vista emocional como a chegada à meta. Pegando no exemplo deste livro, a alegria e o entusiasmo que eu senti ao longo de toda a construção deste projeto são muito mais enriquecedores do que simplesmente ver o livro à venda numa livraria (que é o objetivo final). A felicidade é assim uma construção, não o edifício já feito. Isso é apenas o culminar de um projeto, de um sonho, mas depois há que passar para o seguinte. Trata-se, portanto, de sentir que hoje somos mais felizes do que ontem porque hoje já demos mais um passo na nossa caminhada do nosso próprio projeto de vida.

 

O livro que acaba de publicar assume um tom alegre e ligeiro, quando na realidade aborda temas sérios e profundos. Foi propositado?

 

Sim. Quero chegar a um público vasto e para isso não poderia usar uma linguagem muito técnica ou demasiado séria. O meu público (quer os leitores, quer as pessoas que me procuram para sessões de counselling e formações) é constituído por pessoas funcionais, estruturadas, que sentem que falta qualquer coisa na sua vida. O propósito é falar de temas sérios e profundos, mas de forma a que as pessoas percebam e queiram saber mais. Por outro lado, a aparente leveza, e a diversão é uma das melhores maneiras, pelo menos para mim, de aprender e integrar um conhecimento. Talvez esta seja a herança de tantos anos de ensino. Sempre me fez confusão, aqueles professores que falam como se falassem para colegas da área ou como se os alunos já soubessem determinadas coisas, tendo um registo exclusivamente orientado para uma comunicação de outro nível. Até pode ser que os alunos já devessem estar nesse nível, mas se não estão é inútil insistir… temos de chegar à outra pessoa para lhe conseguirmos transmitir conhecimento, temos de ter a sensibilidade para percebermos qual a maneira mais adequada de entrar em comunicação com o outro: ignorar esta questão é perder completamente todo o processo. Temos de entrar em relação com o outro, conhecer o seu mundo para descobrir qual a melhor porta para entrar nele. O meu princípio é sempre aquele de explorar como é que eu posso fazer para que a outra pessoa me perceba e não como é que eu vou escrever ou falar para que os outros achem que sei muito. Não importa o que eu sei se o leitor não me consegue entender. Com este livro, eu quero chegar aos leitores que se preocupam por terem uma vida melhor, não aos leitores da área que já sabem como fazê-lo.

 

Que sugestão pode dar a outros que, como a Rossana, desejam lançar-se na escrita?

 

Escrever. Escrever por prazer, por necessidade e não por obrigação ou porque querem um livro porque sim. Conheço pessoas que me dizem “adorava escrever um livro”, mas depois não conseguem escrever um e-mail… provavelmente criam uma ideia na cabeça, mas na verdade não têm prazer nessa atividade. Para um escritor, escrever é como cozinhar para um chefe de cozinha: é impossível não o fazer. Surge como necessidade automática e natural. A partir daí, se o escritor se quer dar a conhecer e mostrar ao público o que escreve, hoje em dia, felizmente, há variadas maneiras para o fazer. Não precisa de ir bater à porta de grandes editoras, até porque hoje o mercado está muito difícil. Desde blogues a publicações independentes, como é este o caso, há muitas possibilidades. Basta juntar a vontade à criatividade!

 

Tem outros projectos editoriais no prelo que possa partilhar connosco?

 

Quem sabe um futuro volume 2 deste projeto… Continuo a escrever para o semanário Mundo Positivo, já vamos no n.90. Vamos ver a recetividade deste primeiro livro e depois logo se vê!

 

 

Ousar ser feliz:

Dá trabalho mas compensa!

Rossana Appolloni

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